SÂNSCRITO: TRÊS ABORDAGENS

SÂNSCRITO: TRÊS ABORDAGENS

1) A Descoberta do Sânscrito Pelo Ocidente

2) Panini e a a Estrutura do ASTadhyAyI

3) A Tradição Gramatical da Índia como Disciplina Espiritual

– I-

A Descoberta do Sânscrito pelo Ocidente

(…) “More perfect than Greek, more copious than Latin…”

A primeira gramática a rigor de sânscrito terá sido a do missionário jesuita Heinrich Roth que chegou à Índia ainda na primeira metade do século XVII e por ali viveu percorrendo grande parte da India setentrional por várias décadas. Ele é o autor de uma Grammaticca linguae Sanscretanae Brachmanum Indiae Orientalis, completada em 1660. Roth dominava o persa, o kanadda e o hindustani e numa de suas viagens à Europa entrou em contato e influenciou significativamente Athanasius Kircher , famoso por sua polivalente e algo cabalística visão das linguas orientais, em particular o chinês.
Profundamente inspirado pela gramática de Roth, que viria a falecer em Agra em 1668, o segundo importante nome nessa linhagem de primeiros sanscritólogos e indianistas é sem dúvida Johann Ernst Hanxleden, também conhecido como Arnos Pater, que chegou à à costa do Malabar, a Grande Goa ,em 1700 e viveu no sul da Índia até o final da vida ( 1732). Igualmente poliglota, compôs uma gramática conhecida como Grammatica Grandonica, que permaneceu por quase 300 anos desaparecida até ser redescoberta num convento na Itália e recentemente eruditamente editada.
Roth e Hanxleden são sem dúvida os primeiros sanscritistas e indólogos que temos notícia e os primeríssimos filólogo-indianistas, pois que além do sânscrito e das linguas dravidianas, conheciam também profundamente o português. Ainda nesse contexto prévio do em b reve emergente orientalismo, há de se mencionar uma outra gramática, publicada também no sul da Índia em 1790, a saber, a do o missionário Paulinus: grammaticam brahmanicam siddharUpam, tida pelos estudiosos como sendo em larga medida um plágio das gramáticas de Roth e Hanxleden. SiddharUpam, diga-se de passagem, era um dos mais utilizados manuais de aprendizado de sânscrito no sul da Índia à época de Roth e Hanxleden, e Paulinus resolver entitular sua gramática com o mesmo título.
A obra de Hanxleden como sanscritista e indólogo é variada e tem-se notícia de um dicionário português-malayala, assim como de vários poemas de inspiração cristã compostos em sânscrito ou numa das linguas dravidianas. Interessante observar que desde finais do século XVI o português tornara-se uma lingua de destinação para os rudimentos lexicográficos ou gramatológicos, tanto na Índia quanto também na China, onde o primeiro vocabulário chinês-português compilado por um jesuita italiano em Macau é feito igualmente em lingua lusitana. Ainda dessa primeira leva de jesuitas que se debruçaram sobre o arcabaouço linguístico e cultural da Índia há de se mencionar Jakob Hausegger, Archbish, Antônio Pimentel e Bernard Biscoping
Outro nome que também está associado a esta primeiríssima fase de descoberta do manancial do sânscrito, agora já em meados do século XVII, é o do jesuita Gaston Couerdoux, o qual fará pioneiramente menção em suas cartas escritas para sábios europeus da era do Iluminismo, entre os quais Bartholemy, sobre sua convicção a respeito do parentesco entre o sânscrito, latim e gregosim sendo, Coeurdoux foi o primeiro a ventilar a hipótese de ter o sânscrito junto com essas linguas uma comum ancestralidade, antes de qualquer outro.,
Será contudo a partir de William Jones, orientalista poliglota nomeado como juiz da emergente cede do poder colonial inglês na Índia, Calcutá, que de maneira radical e consequente aprofunda-se o estudo do sânscrito. Jones, que ao chegar à Índia já dominava não apenas o Grego e o Latim, como era de costume, mas igualmente o persa, o árabe e o hebreu, e mais uma dezena de outras linguas e vislumbrou rapidamente o tesouro linguístico e civilizacional que existia no subcontinete. Seus estudos intensivos de sânscrito com vários Pandits locais o capacitarão em breve a produzir a primeira tradução de uma obra maior da literatura indiana em sânscrito: o ShakuntalA de KalidAsa, sobre a qual Goethe pouco mais tarde teria o seguinte a dizer:

Will ich die Blumen des frühen,
die Früchte des späteren Jahres,
will ich, was reizt und entzückt,
will ich, was sättig und nḧrt,
will ich, den Himmel, die Erde, mit einem begreifen,
nenn`ich Sakontala, dich, und so ist alles gesagt!

Dentre os méritos desse visionário orientalista, William Jones, mereceu particular atenção na linguística haver ele afirmado, em histórica comunicação feita à Royal Asiatick Society of Bengal, em 1798, haver um parentesco entre o sânscrito em outras linguas européias e que as mesma teriam uma fonte comum:
“The Sanskrit language, whatever may be its antiquity, is of a wonderful structure. More perfect than Greek, more copious than Latin and more exquisitely refined than either; yet bearing to both of them a stronger affinity, both in the roots of verbs and the forms of grammar and so strong that no philologer could examine the Sanskrit, Greek and Latin without believing them to have sprung from some common source, which, perhaps, no longer exists”.

Com tais afirmações abriam-se as portas para o surgimento da linguística comparada, pelas quais Franz Bopp e sua seminal obra Über das Conjugationsystem, de 1816, haveria de adentrar.
Ainda nesta primera fase da indologia, na qual os ingleses predominam antes que os alemães passem energeticamente à frente, temos Charles Wilkins, tido como o primeiro sanscritólogo a rigor, autor de uma inaugural gramática de sânscrito (1808) assim como do primeiro Sanskrit-English Dictionnary. Outro nome de destaque dessas primeiras décadas foi H.T. Colebrook, autor de um importante Essays que tratam de práticamente de todos os domínios da indologia, da numismática à epigrafia, passando pela história, mitologia e filosofia. Dentre esses há de se mencionar ainda J. Ballantyne, autor da primeira tradução do Yogasutra, de Patanjali e de uma tradução de uma famosa gramática concisa do sâncrrito pelo método tradicional ( ou quase ) : laghu siddhAnta-kaumudI. Por volta do final da década de 1820 esta dianteira inglesa perdia força e brilho e H. Colebrook em carta datada de 1830 lamentava o declínio precoce dos estudos de sânscrito em Londres e Oxford.
Na França é criada já em 1814 uma cátedra de sânscrito, no secular Collège de France e na Alemanha logo após a publicação da obra de Bopp, em 1818, com os irmãos Schelegel como primeiros ocupantes. A partir da década de 1830 a linguística alemã avança vigorosamente em quase todos os segmentos, não menos no do sanscritismo, de modo que a partir de meados daquel século obras lexicográficas de envergadura começam a despontar, tal como o monumental Sanskrit-Wörterbuch von Boethlingk/Roth, a ser completado em 7 volumes entre 1852 e 1875. No campo dos estudos gramaticais, os estudos e tratados são legião, produzidos por nomes como Delbruck, Wackernagel, Curtius, Rask e dezenas de outros. A própria criptográfica gramática do maior de todos os gramáticos indianos, PAnini, obra-prima de concisão e abrangência, verdadeiro tour de force para qualquer tradutor, é trazida pela primeira vez à luz também por Böthlingk já pelos idos da segunda metade do século. Proximamente ao final do século começa a ocorrer uma preocupação cada vez maior em se escavar as profundezas do legado gramatical nativo, o que representa mais um passo em relação a certa desvinculação do europeucentrismo predominante. Uma importate contribuição nesse sentido é o estudo de Bruno Liebich: Zur Einführung in die indische Einheimish Sprachwissenschaft (1919). A extraordinária riqueza gramatical do sânscrito, assim como a imensa literatura que ele produziu num amplo leque de campos de manifetsção cultural, continuava deixando perplexos os indólogos europeus, enquanto na Índia começava a surgir uma geração nativa de sanskritólogos que traziam um tipo particular de abordagem, mas rica e mesmo abundante, porquanto frutos da contínua tradição de ensino do sânscrito, embora ainda sem o rigor gramatical do Ociente. Dentre esses três nomes merecem atenção, a saber, Belvakar, Bhandarkar e Kale. Da escola francesa não poderia deixar de ser citado Louis Rénou, autor de uma tradução do ASTdhyAyi em dois volumes e uma outra do gramático Hemacandra, assim como uma Terminologie Gramaticale du Sanscrite e uma profusão de ensaios, monografias, livros. Recentemente há de se mencionar as contribuições de Liebich, Staal, Thieme, Rocher, Kunkuji Raja e Brough. Os estudos de sânscrito no Ocidente enveredam atualmente pelas áreas já desbravadas e trabalham sobretudo pelo aprofundamento das variantes paradigmáticas.
Do pós-guerra para cá, não obstante o recuo das vias tradicionais na moderna Índia industrializante, cresceu enormemente em número os trabalhos de sanscritistas nativos que não raramente ensejam um algo mais que de resto sempre faltaria ao estudioso ocidental, algo que ecoa e transborda em riqueza proveniente do legado linguístico herdade naturalmente e de modalidades arquetipais que falam por si mesmas e que agora são tratadas pela aparelhagem da linguística moderna.

II

A TRADIÇÃO GRAMATICAL NA ÍNDIA
COMO DISCIPLINA ESPIRITUAL

“Der Philosoph in den Netzen der Sprache eingefangen” – Nietzsche- Das Philosopherbuch)

A Chaim Samuel Katz, primeira verdadeira amizade, primeiro incentivo intelectual!

A tradição gramatica na Índia perde-se e na noite dos tempos, Segundo Belvakar, ela existe, comprovadamente, desde os tempos védicos, o que nos situa entre os séculos XI e VIII A.C.: “The earliest speculations of a grammatical nature are to be found with the later portions of the Rig Veda itself”(1). Mas existem também os que advogam uma ancestralidade ainda mais prolongada, e se apóiam no fato de a linhagem de 10 gramáticos citados por PAnini ( séculos VII ou VI A.C ) remontaria a séculos anteriores, assim como a uma tradição oral não-comprovada historicamente, a de uma chamada Escola Aindra de gramáticos, os quais tinha o estudo da cabalística dos sons e das palavras . Segundo essa corrente, tudo isso levaria a tempos pré-védicos. Seja como for, é de fato no período védico que um primeiro ordenamento gramatical e particularmente fonológico começa a ocorrer, em particular com as etimologia do Yaska.
Seja como, o importante é assinalar que a lenta, longa e extremamente sólida construção de uma ciência gramatical na Índia sempre esteve intima e organicamente vinculada aos vários puruSArtha – metas de vida – da civilização indiana, a saber, o da superação das falácias da mente, da ignorância das representações de si e do mundo e o ascender a estados superiores de consciência. Inúmeras correntes de saber e de práticas artísticas se prestarão à obtenção desses objetivos, e dentre elas não menos a gramática do sânscrito. Essas disciplinas “autorizadas”, ditas pramAnikas, ou seja, genuinas fontes de conhecimento constituem modi cognitivos que devem ensejar transformações ônticas, sempre universalmente apoiadas pela prática de alguma forma de yoga, como suele sempre ser na Índia. O estudo da gramática pelas vias tradicionais é por conseguinte um marga operacional que trabalha sobre um aspecto do saber e carrega em suas imanências um pressuposto de “transmissão” desde cima, pelo agenciamento de um plano intermediário, o guru e a sadhAna correspondente.
No caso da gramática, cujo monumento cânone, “descritivo-ortodoxo” é a gramática (vyAkarana , “desfazer/ndo através da análise”), de PAnine – o Astadhyayi – e seus quatro acessórios, o ponto de partida encontra-se na mântrica destribuição do alfabeto do sânscrito, sua cabalística sonora, revelada pelo deus Shiva: os MAheshavara Sutra(s).
Para os hindus existe no mais profundo da consciência humana um anseio latente por liberação das amarras da ignorância, para que aquele substrato cósmico ali alojado – o atman- possa por fim reintegrar-se à sua parte cósmica, Brahma, de onde ele adveio. O termo para essa vontade é Mumuksha, uma formação secundária a partir da reduplicação do desiderativo verbal da raiz muc, da qual origina-se também Moksha, “Delivrance”, o *u* recebendondo em seu lugar a vogal guNa correspondente, *o*.

PANINI

PAnini, esse nebuloso nome ao qual se atribui a autoria do ASTAdhyAyI e dos quatro acessórios, não enseja disputas quando se trata de afirmar ter composto a mais perfeita e elaborada gramática que se tem notícia na história da humanidade. Se a compararmos com alguns dos monumentos gramáticas produzidos pela linguística alemã no século XIX, três fatores contribuem para ratificar tal primazia: absoluta concisão descritiva através de uma técnica de metalinguagem, inaugurabilidade e originalidade. Bloomfield, o linguista americano se refere a essa obra como “one of grteatest monuments of human intelligence”.
PAnini codifica, normatiza, e instaura um campo de saber através de cerca de 4 mil regras formuladas à maneira algébrica, que funcionará desde então como matriz de uma extraordinária civilização. Sua época terá sido algo em torno de 600 ou 500 anos A.C.
O sânscrito da época de PAnini, após passar pela sua fase áurea do período estritamente védico e ingressar num proto período de especulação filosófica – Purva MimAnsa, Upanixades, etc – começa a sofrer certa desagregação gramátical, na medida em que formas verbais da lingua védica tornavam-se obsoletas – os aoristas por exemplo- assim como um vocabuário em crise semântica. Por outro lado, dialetos adjacentes, tais como o PrAkRit e o Pali despontavam e eram usados cada vez mais frequentemente pelas novas seitas religiosas que íam surgindo, tais como o budismo e o jainismo. Panini surge com a sua gramática para colocar ordem na casa e de fato ele foi bem sucedido, porquanto esta ingua bem acabada refinada”- o Sam-s-krt – tornar-se o latim de todos a intelligentsia indiana, fosse ela hindu, budista, jaina ou carvaka ( materialistas ). Ela se prestará não menos como lingua dos épicos – MahAbhArat, RAmAyana – e de grande parte da literatura indiana. Praticamente a totalidade – com algumas devidas excessões – das centenas, talvez beirando o milhar, de tratados de filosofia foi redigida nessa lingua codificada por PAnini.
Uma das outras partes do ASTAdhyAyI, aquele que realmente inicia tudo e que está for a do corpus da gramática, são os chamados MaheShavara Sutra, a disposição esotérica do alfabeto sânscrito, dispostas as vogais e consoantes de tal forma em que o modus operandi de seu aprendizado enseja uma tomada de consciência sonoro-cabalística diretamente relacionada com a ciência mântrica – mantravidyA- cujo objetivo precípuo é implantar no aluno uma experiência iniciática quanto aos valores sonoros-energéticos que as vogais num primeiríssimo plano e a seguir as consoantes possuem. Trata-se de instaurar desde logo no discípulo a consciência dos fundamentos de todas as imensas superposições que virão a seguir, das “dez mil coisas do mundo “como diriam os daoístas.
Dentre inúmeros outros, como suele ser o caso na Índia, dois “gramáticos-linguistas”destacam-se num primeiro momento como continuadores e comentatores dePAnini, KatyAyana e seus Varttikas e o monumental comentário entitulado MahAbhASya, de Patanjali, que pode ter sido o mesmo que compôs o famoso tratado YogasUtra.
De fato, como costuma acontecer na história das idéias, políticas, filosóficas, astronômicas e tantas outras, a hegemonia de uma determinada escola não significa necessariamente que ela é a única em seu tempo ou mesmo a melhor. No caso de Pânini e a tradição estritamente gramatical e espiritual que ele fundou, “ao que tudo parece indicar” tornou-se soberana de pleno direito. Mas sabe-se que haviam outras linhas e escolas já à sua época e mesmo antes, tais como a que se conhece como Aindra escola de gramática e gramáticos como Candra e Hemacandra. PAnini mesmo cita em sua gramática 10 outros gramáticos cujas biografia e legados desapareceram através das noites dos tempos, o que costuma ocorrer com frequência na Índia.
Mas a ciência da palavra como disciplina espiritual tornar-se-á objeto de inúmeras escolas. A gramática do sânscrito permaneceu na Índia um espécie de primus inter pares, o principal membro dos Vedas ( prathamAngam ), sobretudo junto à ortodoxia brahmanica e não é à toa que corre o dito em sânscrito: mukham smRtam tu vyAkaranam, ou seja, dentre todas as linhas de transmissão a gramática é aprincipal.

Filosofia dos sons

Os 14 aforismas da “pré-gramática paniniana, os Maheshvarasutras, tidos como criados pelo deus Shiva com as batidas de seu tamborim – o damarU – haveriam então de servir como ponto de partida para uma variedade de abordagens yoguico-enérticas, filosófico-contemplativas e puramente místicas não menos, para várias escolas tântricas da tradição Agama.
O Verbo Supremo éinicialmente apenas sonorização cósmica, vibração musical elementar que traz em si informações que o logos deverá depois por desdobramentos desencapsular. Os Vedas seriam então a primeira grande codificação imagística e politéisticas desses desdobramentos dos sons primordiais no plano do manifestado, nessa interlocução conflitiva entre homens e deuses. Os Vedas – Rig Veda, SamaVeda, Atharvaveda e Yajurveda – descrevem e prescrevem através de injunções e fórmulas essa situação desagregada da condição humana, de corpos orgânicos que abrigam e condicionam, perecívelmente, uma alma que em sua ignorância precisa ser esclarecida para saber-se na essência parte de uma ordem cósmica. Ao restabelecer essa ordem, tentativamente, o homem está preservando o Rta ( que aqui corresponde praticamente in totum ao conceito de Dao dos chinêse ) e reintegrando-se à ordem própria do universo. Portanto a recitação dos textos védicos possui uma cad6encia com intonações e uma métrica rímica e rítmica rigorosas. Um dos objetivos é ir treinando o corpo e amente àquela consciência rítmica original, cósmica, que a ciência/arte dos dos sons, dos mantras tenta resgatar. Dessa visão iniciática, inaugural védica, uma profusão de correntes da filosofia da palavra-som haverão de surgir pelas mais variadas vertentes.
3- Período Clássico

Aquilo que a taxonomia se arvora classificar como período clássico da filosofia da gramática possui um penchant certamente mais exoterista, à la moyenne, porquanto se mantém fortemente adstrita à ciência gramatical estrito senso.
Três nomes se destacam de acordo com as classificações acadêmicas: BhatRhari ( primeira metade do século V da era cristã), Mandanamishra ( século VI ) e Abhinagupta ( fins do século X e princípios do XI), sem qualquer sombra de dúvida gigantes cada qual em sua própria modalidade.
A obra central de BhatRhari é o tratado conhecido como VakyApadIya, texto inteiramente consagrado à filosofia da palavra, ao percurso linguístico-depurativo das falaciosas representações que temos do mundo rumo à retomada plena da consciência da palavra suprema – vAk – como sendo o Brahma, a entidade suprema. Portanto, o estudo da gramática é via de retificação e dedepuração cognitiva através da sintaxe correta, o que lembra em muito a abordagem de um Wittegenstein, mas provida de uma metafísica.
Dentre inúmeras passagens que enfatizam esta visão filosófica da importância da gramática e da palavra, cito esta:

Asannam brahmanastasya tAm uttamam tapah
prathAmam chandasAm angam Ahur
vyAkaranam buddhah!
PrAptarUpavibhAgAyA jyitish
tasya margo ‘yam Anjasah.

Próxima do Brahma Supremo ela é a ascese superior
e como o primeiro membro dos Vedas ( Chandah ) a
consideram os sábios.
Esta essência soberana da palavra,
dotada de formas diveras, luz santificada
é a via direta rumo ao Supremo!
VAkyap. I, 13

A filosofia da gramática como via espiritual e de profilaxia linguística de Bhatrhari incorpora, como suele na Índia, vários fragmentos de abordagem filósofica do seu Zeitgeist, provenientes entre outros do budismo e da filosofia vedantina. Mas a visão de Bhatrhari é ancestral e a postura “agâmica”, ou seja, a que reivindica a mais alta proveniência e ancestralidade de sua escola-abordagem linguística aponta CandrAcharya como aquele que teria resgatado aquela transmissão/revelação inaugural. A palavra-mantra possui uma essência ( shabdatattva), uma espécie ousia metafísica, e esta essência é Brahma, sua origem última não manifestada:

AnAdinidhanam brahma
shabdatattvam yad akSaram
vivartate ‘rthabhAvena prakriyA
jagato yatah.

Ó Brahma , sem começo nem fim
essência da palavra, a qual imperecível
manifesta-se com os objetos/sentidos
no mundo.

VakyAp. I.I

Esta abordagem dicotômica, palavra (shabda)/brahma, estará presente sob variadas formas e nuances em todas as linhagens de filosofia da linguagem na Índia. Shabda significa em sentido estrito gramatical, o aspecto externo, forma(l) de uma idéia, mas em algumas abordagens, como em Abhinavagupta, ele adquire o sentido de instâncio-logos suprema.. Para os tântricos a dicotomia se faz com shabda/shakti, etc. Portanto, a consciência precípua da vinculação hierárquica entre o plano da essência invisível e sua forma manifestada gráfica e sonoramente é universal nas escolas dualísticas, advaita e muito sobretudo nas da filosofia da palavra. Goethe aludiu certa feita a essa indissolúvel relação: Das Schein, was wäre es ohne das Wesen, und das Wesen ohne das Schein” ( citado por Hegel em Die Phänomenologie des Geistes).

SphoTa

Mandanamishra é tido como um dos mais importantes defensores da teoria do sphoTa ( literalmente: eclosão, “rebento”), segundo a qual os sons são imbuídos de alusões ao sistema vibratório do universo, as palavras sendo apenas o revestimento externo, tal qual o corpo humano é apenas uma carcaça perecível que reveste – e aprisiona – algo eterno, o atman, o prANa, etc. Segundo John Brought, importante estudioso das teorias linguísticas indianas, a teoria do sphoTa defendida por seus intérpretes outorga ao conceito a função de portador semântico, ou como diriam os alemães Bedeutugsträger.
Em texto antológico, o Sarva-Darshana Samgraha, de Madhava, a teoria do spotA é descrita como defensora de uma apreensão estrutural, monadicamente em si fechada, uma unidade-sentido da palavra ou mesmo de uma frase, e não deveria jamais ser fatiada em sua sequêncialização fonética ou fonêmica. Trata-se, portanto de alçar-se a um conceito-idéia e não se deter em particularidades adjacentes, o sphoTa é a eclosão na consciência de um sentido em textos pramânika(s) ( autorizados ) e consagrados pela sacralidade da tradição como palavra manifestada. Tanto para AudumbarAyana quanto Varttaksha, representantes desta escola, o yogin-sAdhaka possui imanente em seu espírito tão somente a idéia da essência semântica das palavras, forma externa que atua como upaya.. Uma outra tipologia da tradição gramatical indiana dentre de seu âmbito mais filosofal e esotérico, faz uso do par dhvani e artha ( som e sentido ), que passará a ser amplamente utilizado a partir do século IX e X da E.C. Quando utilizadas pelos gramáticos estrito senso, esta dicotomia em muito se aproxima dao par langue/parole do linguista suiço de Saussure, na medida em que a parole, assim como o dhavani são necessariamente efêmros e contigenciais, mas a langue porta um ( mutável para de Saussure, porquanto historicamente passivel de variação semântica ) valor mais estável, tal como o artha, para os indianos. A esse propósito cabe de bom tamanho uma passagem do vAkyapadya:

AdyantAntantargatAnantavAyavAcakanirbharam/
rahasyam mantramudrAnAm prapadye ‘nuttaram mahah//

Recorro aos segredos dos mantras e dos mudras, à grandeza
suprema que contêm o significado e o significando infinitos
presentes tanto no começo como no fim!

Essa escola de filosofia da palavra choca-se, contudo,quase que diametralmente com a visão das palavras como mantras, sons eternos a serem pronunciados corretamente – como no caso dos Vedas – e representam por si só, tão somente como re-vibração de sons primordiais, uma verdade superior àquela que os sentidos poderiam ter. Aqui sem dúvida uma contradictio in adjecto ocorre e que aponta para certas cisões fundamentais entre a tradição Agama de ascendência estritamente védico-brahmanica e aquelas advindas da tradição shaiva.
Em termos de linguística, o surgimento da teoria do sphoTa representou sem dúvida um grande salto. Ela receberia aplicações as mais diversas, como por exemplo aquelas da gramática do sânscrito em um BhTToji-DIkshita que concebeu um sphoTa para as letra – varNa-sphoTa, um para as palavras completas (padasphoTa) ou mesmo para a frase, vAkyasphoTa.
Na teoria poética ela influenciaria a obra de Anandavardhana e pouco depois o próprio Abhinavagupta.

Abhinavagupta

Abhinavagupta ( séculos X e XI da E. C) é visto como um gigante da Idade Média indiana. Poeta, esteta filósofo de espírito enciclopedístico sua obra encontra-se insirida dentro da tradição do Shivaismo do Kashmir. O Verbo, visto como entidade suprema, há de ser alcanádo em sua plenitude de significados a partir de percurso de quatro etapas, ou vice versa, o Verbo Supremo descende ao plano do manifestado numa sequência de quatro etapas ( o que evoca as quatro etapas de manifestação do dragão, na mitologia esotérica chinesa). Num primeiríssimo momento o Verbo Supremo encontra-se não-manifestado, imóvel, por ssim dizer em pleno samAdhi – êxtase! Essa é a etapa primordial- parA! Na segunda etapa ou estágio ele é pashyanti ( que a rigor é a 3 p. do pres. Verbo ver dRS ), quando ele inicia sua participação no plano do manifestado. Na terceira fase, madhyamA ( “intermediária”) ocorre a absorção do prAna primordial, aquele que insufla vida às palavras e, por fim a fase de manifestação de sons e sentidos através da articulação verbal- vaikharI. Uma vez mais torna-se supérfluo repetir que é tão somente através das variadas práticas de meditação do yoga que tal visualização de etapas se faz possível, coordenadas pela orientação dos pressupostos da escola. Mas Abhinavagupta é inaugural em certas particulariades, muito especificamente quanto essa quadripartite exposição, embora dentro de uma eixo epistêmico já existente. Aqui Brahma como entidade primordial mantém plenamente seu estatuto pós-védico.
Para Abhinavagupta e outros dessa linhagem, tais como Nandikeshvara e KrshnamAcharya, o emprego de técnicas yôguicas específicas visando o aprimoramento da shakti subjacente ( que aqui adquire extraordinária semelhança com o cultivo do qi original pelos daoistas ) tem como telos, artha a expectativa de visualização da entidade suprema (brahma, ou por substituição shiva) Bindu (literalmente “gota”, ponto de interseção) e nAda ( canal, via ) são igualmente conceitos-operacionais chaves.

O Mantra

O mantra, som-vibração significante sagrado, é um dos sustentáculos da tradição tantrica. Além do aspecto inaugural litúrgico, proveninete já desde os Vedas, um outro inserido dentro das especulações da filosofia da linguagem, ele exerce uma função operacional nas técnicas de recanalização energética, mais específicamente a do “despertar” através de sua repetida articulação sonora a energia da kundalinI adormecida no chakra da base da coluna vertebral- mUladhara.
A palavra mantra provém ironicamente da raíz verbal pensar (man) e é formada com o auxílio do prefixo * tra* ( Panini, III,2, 183) possuindo o significado “exotérico” de “forma ( sonora) que se presta a usos diversos”. Os mantras são tidos como e destinados a ter valor/função hipostática, ou seja, são capazes não apenas de evocar e atuar sobre “realidades”, mas igualmente gerá-las, * substanciá-las*. A shakti do mantra não encontra-se apenas em sua dimensão primeira, a sonora, mas igualmente na correspondência de sentido oculto com a realidade não visível, ou mesmo manifestada do mundo, visto aqui como provindo de sequências de mundo aos níveis micro, mas em absolua concordância com os planos macro.
Os defensores da perenidade do verbo supremo – toda linhagem agâmica proveniente dos Vedas e das escola de ascendência brahmano-mimânsika, postulam em combate às visões mais “exotéricas “dos gramáticos e adjacências, que não obstante o som da articulação fonológica ser transitório, o som real que é nele imanente, aquele associado ao significado/sentido/correspondência vibratória da palavra é eterno, da mesma forma que o um jarro não visível num espaço escuro, encontra-se ali, mas não é visível por falta de luz e contudo uma vez iluminado torna-se visível, voltando a não sê-lo uma vez retirada a luz que o iluminou; mas o jarro sempre existiu ali onde estava. A idéia/compreensão central aqui é correlata àquela da anterioridade, tal como será explorado nos upanishades, por exemplo no Kenopanishad, a saber, trata-se de saber que existe aquilo que ocasiona o ouvir da audição, o ver do olhar, o pensamento do pensar…
A partir da disposição das letras do alfabeto sânscrito no MaheshvarasUtra, os cabalistas tântricos de variadas escolas começara a estabalecer correspondências entre as letras e certas regiões e sobretudo chakras do corpo humano. Essa ciência do mantra, mantravidyA. Mas já em seu momento absolutamente inicial, capsular, a saber, o das três vogais fundamentais – *a*, *i* e *u* – tem-se o primeiro momento/visão da ciência esotérica do mantra: o a é produzido na garganta com esforço articulatório praticamente zero e por isso representa o conhecimento transcedental ( vidyA) , o brahma supremo. O i, uma palatal, representa/simboliza a vontade ( icchA) de manifestação ( mas também o potencial retorno ao a, que é conhecimento puro; O u é bilabial e representa/simboliza a ação (kryA). Portanto, o saber inicial oculto ao qual se retorna, a vontade e a ação, o tripé da cabalística tântrica.

A escolástica e especulações gramaticais

Numa vertente de caráter mais adstrito à gramática tradicional e sua filosofia imanente da palavra, o papel de certos gramáticos ditos “pragmáticos, “tais como BhaTToji DIkshita , KondabhaTTa e Nagesha, todos já tardios e situados entre os séculos XIV e XVII de nossa Era, constituem uma vertente escolástica, “exotérica”da tradição gramatical e suas abordagens místico-filosóficas. Alŕm de Panini, todos se apoiam solidamente no MahAbhAshya de Patanjali no Varttika de KatyAyana. Outro texto de filosofia gramatical e exegese de extrema importância é o Kashika, de autor desconhecido. Além de seu bem-sucedido siddhAnta-kaumudI ( e sua versão ainda mais abreviada, o laghu siddhanta-kaumudI), BhaTToji legou-nos ainda um importante tratado, embora incompleto, o Shabda-kauSTubha, cuja arquitetura lembra em muito o Kashika.
KondabhatTTa é conhecido sobretudo por seu volumoso tratado sobre sintaxe, e é por essa razão bastante original porquanto essa área da gramática do sânscrito sempre foi relegada. Existe também dele um estudo sobre a filosofia da gramática numa fatura uma vez mais tipicamente do MahAbhAshya.
NagojibhaTTa ( século XVII) é considerado por alguns linguistas indianos como o mais importantes dentre os acima citadas da tradição gramatical escolástica. Sua obra constitui um tour de force no sentido de conciliar a exegese escolástica e as teorias do verbo supremo tanto da tradição Agama, cujo referencial-vetor são em ultimas instância os Vedas, quanto daquelas de ascendência shaiva que vão desembocar em várias escolas, dentre as quais a importante do shivaismo do Kashmir. Atribui-se a NagojibhaTTa, ou Nagesha como é também conhecido, cerca de 14 tratados sobre o Dharma, um sobre o Yoga, três sobre teoria literária e alamkAra ( estilística ) assim como cerca de 12 pequenos tratados gramaticais. Dentre esses o mais conhecido é vaykaranasiddhAntamanjusA ( “Repositório das Doutrinas dos gramáticos) que reune estudos daquilo que poderíamos dsignar lato senso como linguística geral, epistemologia e mesmo semântica.

Bibliografia:

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III

PANINI E A ESTRTURA DO ASTADHYAYI

Goldstücker has admirably attacked Boethlingk,
but for Boethlingk we forget Goldstücker;
Whitney has admirably attacked Panini,
but for Panini we forget Whitney.
I adore Boethlingk because he reveals to us Panini.
I adore Panini because he reveals to us the spirit of India.
I adore India because it reveals to uas the spirit, the Spirit”.

( Faddegon, Studies on Panini`s Grammar).1

O ponto de partida para a metodologia expositiva da gramática de Panini, o ASTadhyAyI, ou os “Oito Capítulos”, encontra-se nos 14 aforismas ou sutras iniciais do chamado MaheshvarasUtra. Ali, as letras do alfabeto sânscrito são organizadas pelo expediente metalingínguistico conhecido como pratyAhAra, o qual percorrerá como um fio ( sUtra ) ininterrupto todos os cerca de 4.000 aforismas que compõem a obra.
A técnica metalinguistica do pratyAhAra tem, portanto, seu ponto de partida nos Maheshvara(s) e dali servirá como modelo operacional para a técnica paninieana de formulações prescritas. Ela consiste em *condensar* os fonemas uma regra prescritiva dentro de um espaço que tem por fonema final um anubandha ( definido por PAnini em I, 3, 2 ), ou seja, uma letra fictícia que deverá ser eliminada quando da aplicação daquela regra em questão. Assim, quando PAnini prescreve iko yanaci (VI, 1, 77) o primeiro momento de padaccheda ( reconstrução analítica do sentido sintático, explicitando a relação condensada criada seja por sandhi ou samâsa ), a saber, que iko corresponde ao gentivo ( ikah) yan no nominativo e aci no locativo. A seguir, e aqui entra a técnica do pratyAhAra propriamente, ele deverá identificar iko como os fonemas i, u e R, sendo o k um anubandha, ou seja, posto ali provisoriamente e é destituido de qualquer valor aplicacional. Yan abrange por sua vez os fonemas y v r e l ( o n final sendo anubandha e portanto sem valor. Ac ( que no locativo será aci ) abrange os fonemas de *a* (inclusive ) até *au* ( ou seja: a, I, u, R, l, e, o, ai, au. E assim por diante.
Um outro exemplo para melhor elucidar a técnica, extraído agora do próprio corpus do ASTAdhyAyI: em IV, 1, 2 PAnini enuncia todos os sufixos referentes às declinações: svaujasa mautchastAbhyambhisnebhyasnsibhyAmbhyansosAnbhyossup, enunciado que submetido à reconstrução, à expansão de sua modalidade elíptica, condensada e “pratyahárica”, deverá ser assim lido, num primeiro momento: su, au, jas ( nominativo singular, dual e plural ); am, aut jas ( nominativo singular, dual e plural), etc e assim na sequência. Portanto, a seguir, ao longo da gramática, toda vez que PAnini usar SUP, ele estará fazendo menção por meio deste pratyAhAra a todos aqueles sufixos incluídos naquele longo sUtra, excluindo o último fonema que é anubandha. Exemplo complementar: em I, 4, 14 é prescrito Suptinantam padam, o que literalmente significa “(chama-se ) pada ( palavra completa, ou seja, com as devidas desinências) é tudo aquilo que contiver sup, tin ( um outro pratyAhAra que prescreve os sufixos verbais) em seu fim ( antam ). Portanto um pada, uma palavra que está pronta numa frase é aquela que recebeu ( após passar por vários outros processos de formação ou não a partir da raíz verbal) sufixos seja da conjugação (tin) seja das declinações dos casos (sup)!
Caberia aqui uma indagação: mas como é possível que seja prescrita a definição de pada com menção aos pratyaharas sup e tin em I,4, 14, quando estes são tratados apenas bem mais adiante, em IV, 1, 2? E é aqui que entra a questão fundamental do krama, a ordem sequencial pedagógica que vai pinçando em ordem aparentemente aleatória a verdadeira equência *pedagógica * do método tradicional e não daquele “arranjado”sob outro prisma, o da sequencialidade lógica.
Portanto tal é o espírito de concisão eloquentemente típico em Panini e em geral utilizado em apla escala pelo estilo sUtrico em outrois campos de saber. Em Panini trata-se como se fosse de uma sequência de matrioshki de regras gramaticais, uma encapsulação contínua de caráter normativo. E esse imperativo de concisão é tão comum entre os gramáticos que corre o dito: ardhamAtrAlAghavena putrotsavam manyante vayAkaranah, ou seja “ uma meia medida de vogal curta que não possa ser realizada é considerada pelos gramáticos em impportância à gestação de um filho”!
A extraordinária originalidade, brevidade e abrangência da gramática de pAnini segue ensejando torpor nos meios linguísticos e muitos vêem nela a precursora das abordagens vigentes da teoria da comunicação, dos limites do reducionismo do campo semantico nos enunciados semióticos, etc. Esta técnica pAniniana de prescrever fatos gramaticais que se chocam em aparente contradição e que são mais adiante resolvidos num outro nível por um outro tipo de sUtra, conhecido também como Jnapakasiddha, foi objeto de estudos desde a época de Kierlhorn e Boethlingk, ainda na segunda metade do século XIX e foi caracterizada por Bourdon, em arti’absurde”!
Vejamos agora alguns tipos de sutra(s) prescritivas que nos guiam como fios condutores que são através dos labirintos do sistema. Na abordagem tradicional essas sUtras são em número de seis.

ParibhAsha – régra/fórmula de interpretação genérica, que ocorre nos primeiros capítulos do A. e é amplamente usada pelos comentários cânones. Funcionam como regras de auxílio na compreensão quanto à correta aplicação de certas regras. Os paribhAsha sutras se dividem em dois tipos, a saber, a) aqueles que são obtidos por inferência, lingavAti, e aqueles que se aplicam restritamente a uma regra, vidhau niyama kArinI. ShrI GopAla ShastrI define este sUtra como aquilo que limita o que se apresenta como ilimitado nas regras de prescrição específica(vidhi): avyavasthAyAm vyasyyA-sampadAkam sutram paribhAshAsUtram. Patanjali descreve este tipo de sUtra como uma vela num quarto escuro ilumina os objetos mais próximos.
Vrddhi – chamada aquele sUtra-regra prescrita por excelência, ela ensina genericamente tal ou tal fato gramatical e segue válida como um farol, “à excessão daquelas instâncias onde tem validade uma regra proibitiva, pratisheda” ( prasangasâmarthyàd vidhir bhAvisyaty anyatra pratisedhavisayât -MAhAbhAshya. I 1 44 );
Vinimitta – régra que possui causas diferentes daquela que imediatamente precede numa sequência dada.
Vipratisiddha – tipos de régras que se opõem mutuamente em contradição que será resolvida mais adiante. “Ficar no ar uma salutar consciência crítica em estado de epoxé no espírito do estudante”.
Adhikara -Régra autoritativa, rubrica governate, que introduz algo de importante e guia;
E assim por diante.

A ESTRUTURA DA GRAMÁTICA

O corpus propriamente dito do ASTAdhyAyI ( aSTa, oito + adyaya, capítulo, o *I* sendo um sufixo de formação nominal feminina) é composto de Oito Capítulos, cada qual dividido em quatro seções, ou pAda(s). Considerável número de padas do primeiro capítulo é dedicado às definições de termos técnicos a se tornarem operacionais no decurso da obra. Vejamos alguns exemplos:

1,1,1- VrddhiAdaic- At (a) , ai, e au ( serão designados como ) vrddhi, “expansão” ( das vogais/fonemas primários ).
1,1,2- Adengunah – a, e, o são guNa ( vogais de qualidade, um grau de expansão por coalisão: a + a = A; a + i = e; a + u = o).

No início do terceiro pAda é definido o conceito de raíz verbal:

1,3,1 – Bhuvadayo dhatava. Bhu e outras ( cerca de 2. 000 ) são ( designadas ) raízes verbais ( dhAtu).

1,3,2 – Upadeshe ajanunAsika it. Numa formulação do tipo upadesha ( régra de instrução doutrinal: upa desha ) o AC ( ou seja, os fonemas vogais em geral), sendo nasais ( anunAsika) devem ser vistas como IT, ou seja, a serem eliminadas.
1,3,3- Halantyam – HAL ( pratyAhAra que engloba todas as consoantes) deverão também ser consideradas IT quando forem finais (antam) de uma enunciação.
Uma outra técnica paniniana é chamada de anuvrtti, “recorrência”, segundo a qual tem lugar um retorno continuo, parta niveis de abstração e aprofundamento cada vez maior, de tal ou tal valor prescritivo, estabelecendo, e aqui está o ponto-chave, uma relação orgânica, quase-circular na fenomenologia de interação dos variados tipos de regra com o próprio arcabouço do sânscrito como tal, como uma lingua já existente por si só.

Praticamente todos os sufixos do sânscrito são tratados entre os capítulos III e V, parte esta da gramática que segundo muitos, tais como Rénou, é a mais consistente de toda a obra. Os sufixos (pratyaya) de todas as espécies sãos os elementos incorporados à parte final de uma raiz sendo construída para se tornar um pada, ou seja, com os infixos, duplicações, elipses, Umlaut, etc, etc. Esses pratyaya(s) ( III,1,2 ) são agrupados em cinco categorias.
1) SUP- aqueles referentes às declinações;
2) TiN – sufixos verbais em formações conjugacionais;
3) Krt – sufixos de formação primária- particípios, gerúndios, gerundivos, etc.
4) Taddhita – sufixos de formação/derivação secundária, a vasta maioria de substantivos e adjetivos.

Fogem à ação desses sufixos os indeclináveis (avyaya), conjunções, preposições, advérbios e as partículas exclamativas.
DhAtu, raíz verbal e pratyaya, sufixos, dois elementos-chaves na compreensão da visão gramatical indiana. E a tal ponto foi adada continuamente atenção precioua a tudoque gire em torno desses dois conceitos gramaticais eque a sintaxe sempre foi neglihenciada pelos gramáticos. Para os gramáticos indianos a raiz verbal contém uma ess6encia do fenômenos linguístico de importância intergiversável. A raíz verbal significa não apenas a matéria bruta a ser por etapas trabalhada até se tornar uma palavra completa na frase, um pada, mas igualmente traz em si, dentro do antigo e espírito védico e brahmanico da filosofia da palavra, um sentido transcendental. Rocher assim definiu essa importância outorgada à raiz verbal: One of the greatest merits of Indian grammarians consists in that they considered the words used in the language as composite aggregates which could be divided in separated parts (…) Within the analysis elaborated by the indian grammarians the central and most important element is, no doubt, the verbal root, dhAtu, both from the morphological and semantic points of view” 6
O tratamento dos KAraka ( casos, em número de oito ) tal como praticado pelos gramáticos nativos foi objeto de severas críticas por parte de linguistas normativos tais como Whitney, mas os trabalhos recentes de Rocher, Thieme, Staal e Cardona têm sido capazes de contornar esta visão ortodoxa ocidental em nome de uma “lógica” interna que está organicamente ligada ao próprio Weltanschauung indiano, a gramática sendo apenas um instrumento de endereçamento do homem em seu caminho em direção à liberação das amarras do mental e do corpo ( moksha).
A última parte do ASTAdhyAyI trata das leis da concatenação eufônicas e dos tipos de samAsa, os chmados compostos de palavras imbricadas, assim como dos advérbios.
A propalada idionsicrasia da ordem interna do A. causa sem dúvida muito desconcerto. Alguns a descartam como produtiva in totum, como Whitney e adeptos, outros contestam a total adequação para a eficácia do aprendizado, como é caso dos próprios gramáticos nativos da linhagem de um BhaTToji Dikshita, enquanto que os tradicionalistas da mais estricta paramparA defendem um esoterismo imanente e intencional que visa com que o discípulo percorra, devidamente orientado, a silva oscura dos inúmeros atalhos, ou, como poderia ser expresso em oura metáfora, eles têm descobrir o tesouro por meio de ir cavando fundo em várias direções. Louis Rénou fala de “une manière brusque” de passagens nessa ordem tradicional (krama).

Minuciosa e amplamente completada pelos exgetas KatyAyAna e Patanjali, em seus respectivos VArttika e MAhAbhAshya, o ASTAdhyAyI. tornou-se o vetor-mór de tudo mais que fosse objeto de especulação ou investigação linguística, de tudo mais que, dentro do imenso universo que tinha o sânscrito como lingua franca para o intercâmbio intelectual, hindus, budistas ou jainas, tal qual o grego no período helênico e bizantino e o Latim na baixa e alta Idade Média e em certa medida o inglês atualmente. Quando se tratava de saber qual a regra correta era no tripé dos três muni(s) – os três sábios- que se recorria, mas muito mais especificamente ainda nos Oito Capítulos de Panini e seus cerca de 4.000 sutras.
H. Robin assim se refere à importância desta obra em seu A Short History of Linguistics: “Indian linguistics was not historical in its orientation, though its roots lay in the changes languages undergo in the course of time. But the topics covered by modern descriptive linguistics… semantics, grammar, phonology and phonetics are all treated at length in the Indian tradition”. 12

A metalinguagem concebida por PAnini para efeitos de suprema concisão em seu método prescritivo/descritivo tinha sem dúvida em mira o tradicional processo de memorização. Sem dúvida alguma que a escrita já era existente na Índia de sua época, porquanto, à diferença dos épicos de Homero, em que se possa considerar uma tradição oral que foi recebendo interpolações de vários tipos, o método estrito paniniano, em que cada “vogal que não puder ser encurtada tem a importância semelhante ao jascimento de um filho”, só poderá ter sido elaborado através de uma escritura. Embora não esteja preocupado com a cadência recitativa do texto para efeitos de memorização, muito embora as leis de concatenação eufônica e o espírito geral do estilo sútrico peçam naturalmente um pouco por isso, os 4.000 aforismo eram e são destinados à memorização, fato de modo algum icomum para a expandida memória oriental. O chela/shishya é induzido a ir memorizando, já a partir dos 10 ou 12 anos de idade, todo o corpo da obra antes que efetivamente possa compreendê-la e quando estiver jáingressando no domínio mais aprofundado do aprendizado ele “sacará”da memória com facilidade este ou aquele sutra evocado pelo Pandit e trabalhará mais facilmente sua compreensão momentânea e futura, porquanto já memorizado.

A gramática de PAnini foi objeto de três traduções em linguas ocidentais, e pelo menos uma em japonês. A primeira dessas foi realizada pelo renomadíssimo sanscritólogo e lexicógrafo russo-alemão Otto von Boethlingk e publicada em dois volumes em 1887. Extraordinário monumento de erudição e de desafio intelectual, a versão impõe ao leitor uma carga não raramente extenuante de acessórios eruditos. A primeira tradução em inglês, de 1891, foi proporcionado por Vasu e inclui o importante comentário de BhaTToji Dikshita, cujo famoso SiddhAnta Kaumudhi seria igualmente traduzido por ele. A terceira e mais perfeita editorialmente é a de Louis Rénou, importante sanscritólogo especialista em gramática tradicional, e data de fins da década de 40: La Grammaire de Panini. Em Hindi existe a extraordinária versão de Brahmadatta JiJNAsu, publicada lá pelos idos da década de 60 e início da de 70, em três volumes, mas cujo terceiro volume é impossível de se achar. Nesta última versão, o autor produz um completo padacheda em Hindi.
As mais recentes tendências nos estudos paninianos exploram abordagens da gramática geracional e mesmo modelos matemático-computacionais para cruzar estatísticas de insidências, etc.

Bibliografia Seleta

Faddegon, B. : – Studies on Panini`s Grammar. 1955.
-The mnemotechniques of Panini’s Grammar. 1956.
Kierlhorn, F. : – Some devices on Indian Grammarians, 1887.
– KatyAyana and Patanjali- their relation to each other and to Panini.
Bourdon, P. : – Le raisonnement par l’absurde, Journal asiatique, 1938.
Renou, Louis: – Les transitions dans la grammaire de Panini, Journal asiatique, 1953.
Rocher, Rosanne: – The Concept of Verbal Root in Indian Grammar. (Foundation of Languages), 1969.
Agent et object chez Panini, in JAOS, 1964.

Thieme, P.: – Panini and the paninians. JAOS, 1956.
Cardona, G. – Panini`s syntactic categories, in Journal of Oriental Studies, 1967.
GopAla ShastrI: – PAniniya Pradipah, Varanasi, 1975.
Scharfe, H.: – Panini`s metalanguage. American Philo. Society, 1971.
Goldstücker, Theodor: – Panini and his place in sanskrit literature. London: 1860.
Müller, Max: – History of Sanskrit Literature. London: 1859.
Mishra, V.N.: – Panini`s grammar as a mathematical model. Indian Linguistics, –
Staal, Fr. : – Euclides and Panini, in Philos.East/West, 15.
– Syntatic and semantic categories in Panini, Foundation of Language, 1969.

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